18/11/14

O centralismo e o quase monopólio estatal criaram o poder de Mário Nogueira e da Fenprof sobre as escolas e os professores

Mário Nogueira deu uma entrevista ao jornal i no dia 10 de novembro. É uma entrevista que merece análise não tanto por aquilo que o dirigente da Fenprof diz mas sobretudo pelo que se subentende das suas palavras. Os comunistas são mestres no disfarce. Sabem usar como ninguém o double speak e são peritos em deitar para cima dos outros as culpas pelo mal que fizeram. Têm o descaramento suficiente para se apresentarem à opinião pública como os detentores das soluções para os males que eles criaram. A história da educação em Portugal, nos últimos 40 anos, tem sido isso. Hoje controlam um dos maiores sindicatos do país – a Fenprof – com mais de 50 mil filiados de um total de 130 mil professores, com força e influência para impor aos alunos e às famílias uma greve em período de avaliação dos alunos durante 3 semanas e para boicotar a prova de avaliação de conhecimentos e competências, vulgarmente chamada de prova de ingresso na profissão docente.

À pergunta do jornalista “os professores não têm autoridade?”, Mário Nogueira responde:
O discurso público é de uma desvalorização permanente dos professores. Há uma campanha que, quer queiramos quer não, passa para a opinião pública.

Quando afirmo que os comunistas são mestres no disfarce e sabem usar como ninguém o double speak, apresentando-se à opinião pública como os detentores das soluções para os males que eles causaram e atribuíram a outros, é a isto que eu me refiro. Não acredito que exista alguém no país que mais tenha contribuído para a erosão da autoridade dos professores do que Mário Nogueira. Fá-lo com a mestria dos comunistas, uma mestria adquirida e treinada a partir do dia da formatura e da entronização como delegado sindical e, poucos anos depois, de dirigente sindical, num processo de formação prática que dura há 30 anos. Passaram por ele doze(1) ministros durante os 22 anos que leva como dirigente da Fenprof.

Quando Mário Nogueira acusa o “discurso público” de ser o responsável pela “desvalorização permanente dos professores” e pela sua desautorização ele sabe que se está a referir a si mesmo, embora faça passar para a opinião pública que essa responsabilidade cabe aos ministros da educação(2) dos últimos 22 anos. Quem, ao longo dos últimos 22 anos, ocupou o centro do palco discursivo na área da educação? Quem é que sobreviveu a 12 ministros da educação e se manteve, durante 22 anos, como dirigente máximo dos professores? Quem é que abriu telejornais sempre que os professores, arregimentados pela Fenprof, ameaçaram com greves? Quem é que abriu telejornais à frente de grupos de sindicalistas a insultar o ministro da educação, o primeiro-ministro e até o Presidente da República, perseguindo-os para onde quer que eles fossem no exercício de funções governativas ou públicas? Quem é que acicatou professores contra professores com cenas lamentáveis de violência verbal e física durante os boicotes à prova de avaliação de conhecimentos e competências? Quem é que marcou e dirigiu a greve ao período de avaliação dos alunos durante 3 semanas? Quem é que marcou greve para dia de exames?

À pergunta do jornalista “o sindicato deve defender a classe que representa. Preocupa-o quando essa missão prejudica os alunos?”, Mário Nogueira dá um salto quântico e afirma:
Quando os professores estão em luta, estão-no por aspetos que têm a ver com a melhoria das suas condições de trabalho. E essa melhoria contribui para o melhor funcionamento das escolas.

O que Mário Nogueira diz é que existe uma relação de causa e efeito entre as lutas dos professores por “melhores condições de trabalho” e o melhor funcionamento das escolas. Aqui a linguagem traiu-o, não por falta de treino no double speak, mas sim por distração. Ele não diz que as lutas dos professores promovem a melhoria da qualidade das aprendizagens dos alunos porque não é essa a razão das suas lutas. Mas diz que as lutas dos professores contribuem para melhorar o “funcionamento das escolas”. Assim, sem mais, mantendo a posição habitual da Fenprof que é a de colocar a defesa da escola pública ao serviço dos professores, ignorando que a razão de ser dos professores é a aprendizagem dos alunos. A escola pública não existe para servir os professores; estes é que existem para servir os alunos, as famílias e o país em geral.

É o velho discurso dos comunistas quando se referem aos serviços públicos que eles controlam ou condicionam. É também assim com as empresas públicas de transportes, com os enfermeiros e, em geral, com todas as profissões que se deixaram capturar pela influência do PCP e dos seus sindicatos. Que isso tenha acontecido com os professores é uma desgraça que os portugueses pagam com serviços educativos altamente dispendiosos(3) e com um fraco retorno face à elevada despesa que os contribuintes suportam sem que lhes seja dada a liberdade de escolha. O sucesso de Mário Nogueira como dirigente sindical e dirigente comunista é o fracasso da escola. O sindicalismo docente comunista medra com o centralismo, o gigantismo, o quase monopólio estatal dos serviços educativos e a híper-burocracia. Libertem as escolas do centralismo e da burocracia e a hegemonia comunista entre os professores cairá como um castelo de cartas.

Notas
1)      Diamantino Durão, Couto dos Santos, Manuela Ferreira Leite, Marçal Grilo, Oliveira Martins, Augusto Santos Silva, Júlio Pedrosa, David Justino, Maria do Carmo Seabra, Maria de Lourdes Rodrigues, Isabel Alçada e Nuno Crato.
2)      Dos 12 ministros da educação dos últimos 22 anos, só um – Oliveira Martins – é elogiado por Nogueira.

3)      Pese embora o assinalável esforço de combate ao despesismo nas escolas conduzido pelo atual Governo e que se expressa, por exemplo, pela quase supressão do número de docentes com horário zero.

11/11/14

Em 2012/2013, havia 136615 docentes no ensino público

Número de docentes do ensino público em 2012/2013: 136615 (dados do livro O Estado da Educação 2013, publicado pelo Conselho Nacional da Educação em 2014). Houve uma descida significativa, sobretudo no 1º CEB e no ensino secundário entre 2000 e 2013. Em simultâneo, houve uma subida exponencial no recrutamento de docentes do ensino especial. Eram 6129 em 2013.

Número de unidades orgânicas e de estabelecimentos escolares em 2013

As escolas e a organização escolar - Dados do livro O Estado da Educação 2013, publicado pelo Conselho Nacional da Educação em 2014.
No ano letivo de 2012/2013, havia 816 unidades orgânicas, das quais 711 são agrupamentos verticais; havia 103 unidades não agrupadas e 2 agrupamentos horizontais.
Em 2012/2013, havia 6729 estabelecimentos de ensino público.
Em 2000, havia 5500 unidades orgânicas e quase 13753 estabelecimentos escolares públicos.